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Fundo agro da Éxes rendeu mais de 400% em seis anos

Agro 360 Investimento 16/06/2026 09:30 Gustavo Lustosa agfeed.com.br

Um fundo de investimento no agronegócio chamado Xingu, da gestora Éxes, conseguiu um retorno incrível. Ele foi criado em 2020, antes mesmo dos Fiagros, e passou por pandemia, guerras e crises. Mesmo assim, não deu prejuízo aos investidores e rendeu mais de 400% em seis anos, muito acima do CDI.

A Selic saiu de 2% para 15%. O preço da soja variou entre R$ 100 e quase R$ 200. Tivemos pandemia, guerra na Ucrânia e outra no Oriente Médio, El Niño, La Niña, mudança de governo e muitas recuperações judiciais no agronegócio.

  • O fundo Xingu, da gestora Éxes, rendeu mais de 400% em seis anos para quem investiu na cota mais arriscada.
  • Ele foi criado em 2020, antes dos Fiagros, e passou por pandemia, guerras e crise de crédito sem dar prejuízo.
  • O segredo foi pedir muitas garantias aos produtores, como terras, e negociar quando algo dava errado.
  • A gestora ajudou produtores em dificuldade, vendendo terras ou renegociando dívidas, em vez de tomar os bens.
  • Hoje, a Éxes tem dois outros fundos no agro e diz que está esperando o momento certo para investir mais.

Essa montanha-russa de 2020 a 2026 também teve uma grande entrada da Faria Lima (o mercado financeiro) no campo, com os Fiagros, gestoras de investimento e uma crise de crédito forte nesse setor.

Foi nesse ambiente tão complicado que nasceu e agora se encerra um fundo que conta bem a história recente do crédito privado no agro brasileiro.

A gestora paulista Éxes acaba de encerrar seu primeiro fundo focado no agronegócio, o Xingu. Criado em 2020, antes dos Fiagros, o FIDC chegou a ter cerca de R$ 250 milhões em patrimônio líquido (PL) antes de começar a vender os investimentos. Ele terminou sua trajetória sem perdas para os investidores, mesmo tendo passado por uma série de eventos que exigiram renegociações, reestruturações e até ameaças de tomar as garantias.

"Foi um fundo que começou quando o agro ainda não era popular, ficou popular e agora vive um momento de certo 'terror'. E, mesmo assim, entregou um resultado impressionante", disse ao AgFeed Artur Carneiro, sócio-fundador da Éxes.

Ao longo de sua existência, o Xingu investiu em cerca de 16 operações entre CRAs e CPRs, focadas em produtores de soja, milho e algodão. O resultado final chama a atenção.

Segundo a Éxes, a cota sênior do fundo (mais segura) rendeu o equivalente ao CDI mais 4% ao ano (cerca de 120% no total), enquanto a cota subordinada (mais arriscada) teve um desempenho perto de CDI mais 20% ao ano, ou mais de 400% de retorno em seis anos. No mesmo período, quem investiu no CDI teve cerca de 80% de retorno.

O segredo do sucesso: muitas garantias e gestão ativa

Em conversa com a reportagem, Carneiro citou alguns motivos que ele acredita que foram fundamentais para o resultado. Um deles se destaca desde o início: um "excesso" de garantias.

A preocupação fazia sentido, já que o fundo começou a ser criado durante os primeiros meses da pandemia. A Éxes havia recebido autorização para atuar como gestora no final de 2019 e começou a estruturar alguns fundos no início de 2020.

A ideia inicial, segundo Carneiro, era lançar um fundo multimercado focado em operações de crédito direto, uma estratégia ainda pouco usada no Brasil na época. Mas o plano foi atrapalhado pelo avanço da Covid-19.

"Estávamos captando muito bem e, de repente, veio a pandemia. As oportunidades de investimento desapareceram. Não havia coragem para investir em vários projetos e ainda havia dificuldade de viajar para fazer novos negócios", afirmou Carneiro.

A solução foi reduzir o foco de atuação. A Éxes buscou um setor cuja demanda continuasse forte mesmo durante o lockdown e que oferecesse garantias robustas caso a situação piorasse ainda mais. O agro apareceu como a resposta.

"Preso em casa ou no escritório, as pessoas continuavam precisando de comida. A logística do setor também funcionava relativamente bem. E outra coisa fundamental era um volume de garantias importante", continuou.

O foco acabou sendo em produtores de grãos. Segundo Carneiro, diferente de outros segmentos do agro, como o de açúcar e etanol, os agricultores de grãos já estavam acostumados a usar terras como garantia e ainda aceitavam pagar juros mais altos, algo muito atrativo em um ambiente de juros básicos de apenas 2% ao ano.

O desenho do produto também era bem diferente do que se tornou comum depois. O Xingu nasceu como um FIDC "cetipado", numa época em que os Fiagros nem existiam e o mercado de capitais ainda conhecia pouco as operações de crédito no agronegócio.

"Na época, FIDC era quase um palavrão. O mercado olhava para essas operações e muitas vezes nem entendia direito o que era".

Com um mandato definido - financiar produtores de soja, milho e algodão, com foco em soja e forte base de garantias reais -, a gestora conseguiu aumentar a captação e construir um portfólio que, ao longo dos anos seguintes, passaria por alguns dos períodos mais turbulentos da história recente do agro.

Desafios e aprendizado: quando o crédito sai do automático

Quem vê o desempenho final pode imaginar que foi tudo muito fácil, segundo o próprio sócio-fundador. Mas não foi bem assim. "Pelo resultado, parece que foi tudo muito simples. Não foi. Houve muito trabalho de gestão."

Embora o fundo não tenha registrado perdas, a gestora admite que enfrentou quase todo tipo de situação de estresse.

Houve produtores que deixaram de pagar parcelas temporariamente, operações que precisaram ser completamente redesenhadas, negociações envolvendo vários credores e até situações em que a execução de garantias chegou a ser considerada.

Ele cita um caso, por exemplo, em que um produtor mais endividado acabou comprando várias propriedades financiadas por diferentes credores. "Chamamos todo mundo para a mesa. Alguns reassumiram terras, redesenhamos a estrutura e conseguimos fazer com que a operação atravessasse o problema", disse.

Em outra situação, a tomada de uma fazenda em Rio Verde (GO) chegou a ser preparada. Segundo Carneiro, diante da possibilidade real de perder uma propriedade considerada muito líquida, o produtor preferiu vender parte das terras e pagar a dívida antes da consolidação das garantias.

"A gente acredita menos em calote e mais em loss given default (o percentual da dívida que o credor perde se o tomador der calote). Aqui não perdemos dinheiro. Na maioria das vezes, inclusive, ganhamos mais por conta de multas e taxas de pré-pagamento", contou.

Para Carneiro, o principal aprendizado deixado pelo Xingu é que o crédito agro exige uma gestão ativa e que o verdadeiro trabalho começa justamente quando as operações entram em estresse.

"Existe uma ideia de que basta comprar um CRA e esperar até o vencimento. Não é assim. Quando as coisas saem do automático, alguém precisa se sentar na mesa e resolver o problema", acrescentou.

Depois do Xingu: os novos fundos da Éxes

O encerramento do fundo acontece em um momento em que os Fiagros voltam a captar, ainda mais devagar, mas retomando um movimento que ficou parado entre 2024 e 2025. Além do Xingu, Carneiro diz que hoje a casa possui dois fundos de agro em atividade: o Carajá e o Araguaia.

O primeiro é um FIDC fechado com R$ 80 milhões de patrimônio líquido, distribuído em CRAs, CPRs, cotas de outros fundos e mais diversificado em setores: soja, indústria de fertilizantes, químicos, açúcar e etanol, setor florestal, pecuária e milho.

Já o Araguaia é listado e negociado em Bolsa pelo ticker AGRX11 e hoje tem cada cota negociada perto de R$ 8,30. Com mais de R$ 180 milhões em PL, o fundo tem uma estrutura mais parecida com o Carajá, mas tem uma concentração maior em CRAs (80% do Fiagro) e em operações de soja (30%, na divisão por setores).

Segundo Carneiro, o fundo opera com desconto desde o episódio da recuperação judicial da Agrogalaxy, que derrubou as cotas de todo o mercado e, em especial, dos Fiagros com CRAs da rede de revendas do Aqua encarteirados - o caso do Araguaia.

"O episódio machucou a cota e ela não voltou a ficar perto do valor patrimonial. Ele tem um grande desconto em bolsa, mas nós trabalhamos há tempos para criar gordura e aguentar solavancos, além das marcações que fazem parte do mercado", disse o sócio-fundador da Éxes. Hoje, ele diz que 99% do "problema" com a Agrogalaxy já está provisionado.

Considerando o patrimônio líquido do fundo de R$ 186 milhões apresentado na última carta mensal, dividido pelas quase 18 milhões de cotas emitidas, o valor patrimonial do fundo, ou seja, um tipo de "preço justo" das cotas, seria de R$ 10,38. Com isso, o "desconto" seria de 20%.

Carneiro diz que a Éxes entrou em 2026 mais animada com o agro, assim como algumas gestoras que voltaram a captar, mas o contexto de guerra, somado aos já conhecidos juros altos e ao aumento da inadimplência, atrapalhou os planos de voltar ao mercado.

Apesar disso, diz que está confortável com o portfólio e aproveitando para juntar caixa para novos investimentos no futuro.

"Estamos super seletivos. Temos caixa, temos operações analisadas, mas hoje existe uma dificuldade de juntar o risco que enxergamos com o retorno que muitos empresários ainda estão dispostos a pagar".

O próprio Artur Carneiro afirma que, apesar do histórico positivo do Xingu, ainda não vê ambiente para lançar uma segunda versão do produto ou criar um novo fundo.

Enquanto isso, a gestora concentra esforços nos outros dois veículos agro ainda em operação, os fundos Araguaia e Carajá, além da expansão da sua securitizadora criada no ano passado e que já superou R$ 4 bilhões em operações estruturadas.

"A gente sabe que o agro é cíclico. Vai voltar um momento em que as oportunidades ficam mais claras e os consolidadores voltam às compras. Não temos necessidade de investir a qualquer custo e podemos esperar", disse.