Apesar de ter reduzido os juros, o novo Plano Safra 2026/2027 foi criticado por especialistas. Eles apontam que o dinheiro para crédito subsidiado diminuiu e que programas importantes sofreram cortes. A tendência é que o produtor rural precise cada vez mais de recursos privados, e não do governo.
O novo Plano Safra 2026/2027 foi anunciado com um valor recorde de R$ 525,1 bilhões, mas não agradou totalmente a consultorias e especialistas do mercado. Eles reconhecem alguns avanços, como a redução das taxas de juros e o aumento do dinheiro para equalização, mas criticam a diminuição do crédito subsidiado e os cortes em programas importantes.
- O valor total do Plano Safra é recorde, mas o dinheiro que o governo coloca de fato é menor do que no ano passado.
- As taxas de juros caíram, mas o volume de crédito com juros mais baixos diminuiu.
- Programas importantes para o campo, como o Moderfrota (para máquinas) e o Proirriga (para irrigação), sofreram cortes.
- Especialistas dizem que o dinheiro do Plano Safra representa cada vez menos do total que o agro precisa.
- A tendência é que o produtor rural busque cada vez mais crédito em bancos privados e no mercado de capitais.
Para a Cogo Consultoria, a principal mudança positiva é a queda dos juros em quase todas as linhas de crédito, com reduções entre 0,5 e 1,5 ponto percentual. A consultoria também destaca o fortalecimento do Pronamp, programa para médios produtores, cuja taxa caiu para 9% ao ano, e a manutenção das linhas para agricultura de baixo carbono.
Crédito subsidiado encolhe
Apesar desses pontos, a Cogo avalia que o plano continua longe da demanda dos produtores. Para a consultoria, o plano está 'distante das necessidades de financiamento' do agronegócio, fazendo apenas uma 'reorganização' por causa das restrições fiscais do governo. O economista-chefe da Farsul, Antonio da Luz, concorda. Para ele, o plano mantém problemas estruturais que atrapalham o acesso dos produtores ao crédito.
Antonio da Luz aponta que há uma grande diferença entre o valor anunciado e o que os produtores realmente conseguem pegar emprestado. No ciclo passado, por exemplo, a diferença foi de cerca de R$ 75 bilhões na agricultura empresarial e R$ 15 bilhões na agricultura familiar. 'O produtor está cansado de anúncio, está na hora de vermos o que é anunciado acontecendo de fato nos bancos', afirma.
A principal crítica dos especialistas está na política de equalização de juros. A Cogo explica que, embora o governo tenha aumentado em 41% o dinheiro gasto para pagar a diferença dos juros, o volume de crédito subsidiado caiu 14,8%, passando de R$ 113,8 bilhões para R$ 97 bilhões. 'Esse é o indicador mais importante do Plano Safra. Mesmo gastando mais, o governo conseguiu ofertar menos crédito com juros baixos', afirma a consultoria.
Foco em investimentos, não em custeio
Os especialistas também criticam a distribuição do dinheiro. Antonio da Luz diz que o aumento de 38% nos recursos para investimentos não reflete a realidade do campo, que precisa de dinheiro para custeio (plantio, compra de insumos) e comercialização. 'Temos uma queda no dinheiro para custeio e comercialização, que é o sangue na veia do produtor. E um aumento muito grande em investimentos, mas os produtores estão com pouco apetite para investir', explica.
A Cogo confirma que o crescimento nos investimentos se deve à criação de novos programas, enquanto as linhas tradicionais perderam recursos. Dos dez principais programas, nove sofreram cortes, como o Moderfrota (-54%), Proirriga (-38%) e Inovagro (-38%). A consultoria também alerta para a redução de 28% no programa de construção de armazéns (PCA), apesar da falta de armazenagem no país, e o corte de 38% no Proirriga, na contramão do aumento das secas.
Mudança para o mercado privado
Para os analistas, o plano confirma uma mudança estrutural: o crédito rural subsidiado perde espaço e o produtor depende cada vez mais de instrumentos privados. 'O Plano Safra 2026/2027 melhora marginalmente, mas confirma uma transição: o crédito subsidiado perde espaço para o mercado privado', afirma a Cogo.
Antonio da Luz critica a inclusão das Cédulas de Produto Rural (CPRs) no valor anunciado. 'CPR não é uma operação de crédito, é um título de dívida que o produtor emite. Isso infla os números do programa', diz. Segundo ele, o custeio caiu 13%, o investimento 28% e a comercialização 27%. A única coisa que aumentou foram as CPRs, que subiram 8%, mas com juros de 20% a 30% ao ano.
Octaciano Neto, da Zera.ag, explica que o Plano Safra hoje responde por apenas um terço da necessidade de financiamento do agro, que passa de R$ 1 trilhão. 'Os outros dois terços vêm do mercado de capitais e de contratos de barter, sem um centavo do Tesouro', afirma. Ele lembra que, nos anos 1980, o orçamento da agricultura representava até 6% do federal; hoje, é inferior a 0,5%.
Segundo um relatório da L.E.K. Consulting, o crédito oficial hoje representa apenas 3% a 9% do financiamento do setor. Já os instrumentos privados somam cerca de R$ 1,4 trilhão, quase três vezes o valor do Plano Safra. As cooperativas de crédito também ganharam espaço, dobrando sua participação nas operações de crédito rural, de 13% para 25%.
O estoque de CPRs cresceu de R$ 170 bilhões para R$ 565 bilhões em poucos anos. 'O recado é estrutural: o crédito do campo deixou de depender do recurso oficial', resumem os analistas.


Cerimônia de lançamento do Plano Safra em Brasília (Foto: Tauan Alencar/Mapa)





