22 de maio de 2024 - 22:42

Cultura

04/01/2024 10:12 Por: Gilda Portella

Alquimia das Lapinhas em Torixoréu-MT

Lapa é grande pedra ou laje que, ressaltando de um rochedo, forma abrigo, cavidade em rochedo; gruta, ensina Houaiss, e sabemos que lapinha é uma pequena lapa. No regionalismo nordestino é presépio ou nicho que se arma para a festa de Natal e Reis. No folclore é a representação dramática que celebra o nascimento de Jesus, feita diante dos presépios ou em palcos na praça pública, antiga prática dos pastores da Idade Média. Daí vem o pastoril, que acrescentou cantos e danças, nem sempre relacionados ao tema natalino.


Em Torixoréu, a cidade brilhante, fundada por nortistas, nordestinos e mineiros; aqui recriam as lapinhas ao narrar histórias natalinas e visita dos três Reis Magos ao menino Jesus. As lapinhas como expressão artística de fé é devoção faz parte da memória afetiva destas famílias radicadas ao leste de Mato Grosso.


Elementos do cotidiano agrícola e doméstico, como o tear que fabricava as redes e mantas, a bica d'água tocando monjolo, socando o arroz e milho, o carro de boi, meio de transporte no desenvolvimento da região, estão presentes nas Lapinhas torixorinas.


As gramíneas, que ornamentam a cena natalina, eram substituídas por mudas de arroz em pequenas latas de extrato de tomate. Os animais também se adaptaram à realidade do cerrado. Além das vacas, cabras, galinhas, vieram os pássaros, veados, tatus, emas, casas abandonadas de marimbondos e de João de barro e ninhos de passarinhos. Neste cenário natalino, com elementos da fauna e flora do vale do rio Araguaia integravam o nascimento e vida de Jesus que se desenha na lapinha.


Bercholinha de Sá, 101 anos, herdou da sogra a tradição de montar a lapinha, pois ao se casar manteve o costume de montar lapinha e lá se vão 77 anos sem interrupção. Atualmente suas filhas montam a lapinha no início de dezembro e desmontam em seis de janeiro, no dia do Santo Reis. A filha Josefa de Sá Coelho destaca que a lapinha trás imagens de mulheres fiandeiras e rendeiras, em homenagem à família materna, pois as ancestrais femininas fiavam algodão e faziam novelos de linha; além dos passarinhos de barro, pois, elas também produziam objetos de cerâmica.


A Lapinha feita na casa da D. Maria Abadia de Jesus Reis, (Dona Badia) 86 anos, traz elementos regionais: rio Araguaia, uma canoa e a Pedra da Baliza, um importante ponto turístico da região. Usando areia, pedra e toco de árvore, a moringa (de cerâmica, para água fresca do consumo) e o chapéu de couro, da cultura nordestina, um amalgama do coração cristão, onde todos são bem vindos.


Marcia Helena, filha de D. Badia, é a responsável pela produção da lapinha e explica que: "O presépio é uma recordação material do nascimento Jesus que é o foco principal do natal, vale lembrar que neste presépio em especial temos as passagens que compõem o nascimento de Jesus, que é a anunciação do anjo à virgem Maria, a visitação de Maria a Isabel, a fuga de Maria e José com a criança para o Egito, a apresentação do menino Jesus no templo. O presépio é uma tradição religiosa, visando a evangelização”.


Eudetes Souza e Silva Netta, 70 anos, vinha da Baliza-GO, todos os dias vender frutas e verduras Torixoréu, e admirava a lapinha de Rauleliana Costa Matos, (D. Rolinha). E lembra que: “Era uma lapinha muito bem organizada, eu achava muito bonita e gostava de ver, tudo quanto era tipo de animal tinha lá. A gente perdia as vistas de tanto olhar, do quanto era bonita a lapinha, linda demais!! A lapinha era grande. Tinha bichinhos, uns macaquinhos pendurados, tudo quanto animal selvagem tinha lá na lapinha era muito bonita."


Voltando no tempo lembra:"Tinha Jabuti, elefante, girafa, coelho, e um macaco dependurado num elástico numa árvore. Tinha pato, curica, papagaio, tudo isso tinha, o que você pensar de bicho, tinha: veadinho, tatu, e outros que a gente não a lembra mais. Hoje ninguém faz lapinha igual D. Rolinha, ela era muito caprichosa, fazia todas as coisas com carinho, muita dedicação e amor."


José de Arimatéia, 76 anos, sobrinho de D. Bechó, também guarda lembrança da lapinha de D. Rolinha:“lá tinha cadeia e igreja de papelão, um padre de batina, de pé na porta da igreja e uma freira; junto aos soldadinhos armados ia um homem pretinho na frente, amarrado no cordãozinho, que era a corrente, atrás ia uns três soldados carregando o fuzil nas costas.

Tinha muitos bichos: tatu, onça de barro, galinha, boi, vaca, ovelha, parece que tinha bode também, tinha muita coisa, monjolo de buriti. Os patinhos de louça colocava em cima do espelho. Tinha bonecas de pano grandona com brinco e pulseirinha no braço, pequena, de todo tamanho e das que compra na loja também. Tinha aviãozinho amarrado no cordãozinho dependurado na lapinha; o carro de boi tinha a tabinha, a mesa, os cuerrinhos em redor do carro, tinha os pregos, um homem montado no cavalo com o ferrão nas costas, e outro ia de pé na frente. A lapinha de dona Rolinha era a mais bonita e organizada que tinha aqui, era grande a lapinha. A sala dela era grande só ficava o corredozinho no meio de passar, a lapinha tomava conta quase da sala toda.”


Eugeni Rocha, 76 anos, moradora de Torixoreu-MT, rememora que : "Dona Rolinha fazia a lapinha no canto da sala, punha um galho de árvore grande, dai cobria ele com papel, muitas vezes respingava tinta e ali dependurava anjos e santos, colocava os passarinhos imitando uns chocando, outros com os filhotes pequenos acompanhando os grandes.


Ela moldava vários papéis no canto da parede para construir uma gruta. Ela pegava aquelas cascas, no mato dá aqueles cascão bonito nos paus, ela rancava e pregava naquele papel. Concluía enfeitando o chão da sala com pedras, areia. Criava vários ambientes como um rego com água, tinha a bica, o monjolo socando arroz no pilão, carro de boi". Eugeni conclui suas lembranças: "Só dona Rolinha fazia lapinha com tudo isso, os outros aqui Torixoréu, só colocavam a manjedoura com menino Jesus, Maria, José e os Reis Magos. Todo mundo ficava encantado com a Lapinha de dona Rolinha, e iam lá visitar e ficavam admirando. Ela tinha um amor por aquela enfeitação, tinha alegria de fazer aquilo. A gente todo dia queria ir lá vê, eu era encantada com a lapinha ”.


Dona Ilda Sinfrônio, 77 anos, vizinha de Dona Rolinha, relata que na adolescência ajudou na confecção da lapinha: "Iamos com uma turma de moçada no mato, catar casca de pau. Depois dona Rolinha colocava um arvoredo seco no canto da sala e com aqueles papéis de embrulho e papelão pintado mesclado, ela ia moldando as montanhas, com um mingau a gente ia pregando aquelas cascas, ficava igualzinho as montanhas. Daí ela montava o presépio, forrava o chão com areia branquinha em seguida colocava os arranjos do presépio. Nos quatros cantos colocava uma boneca grande como se fosse uma rainha e princesa.


Joana D'Arc, 51 anos, lembra vivências de infância na lapinha de D Rolinha: "Natal época mágica do ano, reunião com família e amigos, presentes, novidades, pertencimento, saberes e fazeres comunitários e tradicionais. O cheiro, cores, movimentos, os sons... Era a materialização de mundos para além dos rios Araguaia e Capim Branco. Me impressiona, altruísmo em abrir sua casa exibindo coisas simples, representando o VIVER em seus ciclos in-finitos. Assim, como as minuciosas e perfeitas replicas de engenhos de farinha, açúcar que funcionavam em movimentos inebriantes. Mais emocionante que um XBOX, me perdia sonhos, me forjando naqueles portais fragmentos. Fábrica de sonhos e mundos possíveis, idealizada, montada, executada por uma mulher com nome de pássaro, me sentia uma torixorina... a lá Cortázar "


Florisa Gomes Silva 72 anos, fala com emoção sobre a lapinha da sua mãe Dona Isabel Alves Gomes: "eu andei fazendo muita lapinha junto com minha mãezinha, nós fazia era tão bom, tinha aqueles poucos enfeitinhos, mas a gente pegava areia, fazia assim no chão (cenários geográficos, matos, cerrado, vales e rios) aquelas coisas de capim, para insinuar o local onde nasceu o menino Jesus, fazia os morros de papel, fazia as bonecas de pano, tudo enfeitado com plantas, pra nós era muito bom. Era a maior benção de Deus".


Florisa rememora a lapinha de dona Rolinha e o que mais chamava sua atenção: " A gente entrava lá, tinha tanta coisa bonita, ela fazia tipo aqueles morros de papel, era a coisa mais linda, muito bem enfeitado, tinha tanta boneca de pano, tanto bichinhos, carneirinho, carrinho de bois essas coisas assim. Você precisa ver que coisa mais maravilhosa, ela fazia era grande mesmo, a gente ficava era hora ali, ela fazia as bonecas de mãos dadas, fazia umas assim de rodinha batendo palma, ela era muito caprichosa. Em volta assim pra não pisarem no presépio, ela enchia tudo de planta, muita das vezes plantava arroz nas vasilhas pequenas, quando estava assim com um palmo de altura ela rodeava ali tudo. Era arroz, era folha de coco, você precisa ver era a coisa mais linda do mundo, eu adorava ir ver a lapinha da Rolinha. Era tantas bonecas, reis magos, assim era insinuação dos reis magos, menino Jesus, o que eu achava mais lindo, mais lindo na lapinha que ela fazia era aqueles morro de papel, como se enchesse assim, fazia aqueles morro parecia pedra mesmo, coisa encantadora, era muito cheia de presépio, era linda. Ela tinha um prazer, quando a gente chegava lá pra ver, pra visitar a lapinha, a gente ficava era hora lá."


As tecnologias usadas por essas mulheres pra confeccionar os personagens, os cenários das lapinhas eram os mais diversos e múltiplos exigindo domínios de saberes e processos criativos, como: fabricar os personagens, costurar os vestuários, produzir objetos de cerâmica ou de palhas, esculpir os animais e demais ferramentas em buriti. Eram verdadeiras artistas criando, recriando, adaptando, combinado materiais, cores, formas estéticas e plásticas.


Performavam no mundo da criatividade, da inventividade, da sensibilidade, da imaginação, interligando elementos concretos e abstrações, conteúdos locais e globais. Trabalham as emoções, os sentidos e a cultura. Eram verdadeiras mestras. Reverenciamo-las, valorizáramo-las. Enfim eram guardiãs de uma cultura que ultrapassa sua geração e permanece viva no coração dos que puderam apreciar esta manifestação cultural tão própria de nossa região.


Plantão

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