Anita Penna começa relembrando suas memórias: "venho da Mesa Branca (Centro Espírita Cristóvão da Síria - Ourinhos-SP) e, em um dia de atendimento com um dos mentores daquela casa, meu querido e amado Timbum me avisou que um Preto-Velho gostaria de falar comigo. Conversei com o Irmão e fiquei encantada com sua sabedoria e a mensagem que me transmitiu. No entanto, não compreendi muito bem a presença daquele Preto-Velho, pois até então não conhecia essas entidades, apenas sabia que pertenciam à Umbanda."
Com o tempo, já morando em Cuiabá-MT, Anita buscava incansavelmente um centro espírita onde pudesse trabalhar e dar continuidade ao seu desenvolvimento mediúnico. Foi então que encontrou o terreiro Centro Espírita Nossa Senhora do Carmo, um lugar que lhe despertou um encantamento imediato. Desde então, já se passaram mais de 10 anos de vínculos com essa casa.
Emocionada, ela continua seu relato: “frequentei o espaço por meses, fui me ambientando e, à medida que me sentia segura, minha mediunidade floresceu naturalmente. Certo dia, senti as emanações e incorporei um guia. Só mais tarde que recebi meu primeiro guia espiritual: Pai Joaquim das Cachoeiras. Ele se apresentou com serenidade e, desde então, trabalhamos juntos há anos. Seu carinho, suas palavras doces e cuidadosas, sua firmeza até nos momentos de repreensão—tudo nele reflete uma sabedoria e um amor infinito. Um verdadeiro mestre curandeiro, com o dom de manipular ervas etericamente e plasmar curativos", como recorda a médium Anita.
Pai Joaquim das Cachoeiras segue um ritual próprio em seus atendimentos. Sempre pede seu potinho com água, ao qual adiciona uma essência perfumada, e utiliza um galho de planta (como guiné ou mirra) para abençoar cada consulente ao final do atendimento. Antes de iniciar seu trabalho, firma um toco (vela branca) e benze o banquinho onde se sentará. Com seu cajado em mãos e, às vezes, um paieiro (cigarro de fumo de corda, enrolado na palha de milho ou papel), ele conversa, acolhendo e ouvindo aqueles que buscam conforto ou simplesmente desejam expressar gratidão. Com reflexões sensatas, palavras sábias e serenas, transforma lágrimas em sorrisos.
Como curandeiro experiente e profundo conhecedor das ervas, ele prepara emplastos para aplicar espiritualmente e fisicamente nas áreas enfermas. Anita confidencia que: "é mágico vê-lo em ação, macerando ervas e preparando remédios no plano espiritual, com maestria, precisão e o amor de quem compreende profundamente os mistérios da natureza e da vida".
Ela continua explicando a linha de atuação do Preto-Velho Vó Joaquim das Cachoeiras, relacionando sua essência e trabalho: "cada entidade que trabalha na terra segue a linha de um Orixá. No caso do meu querido Vô, ele atua na linha de Oxóssi, devido ao seu vasto conhecimento sobre as ervas, e, como seu próprio nome sugere, das Cachoeiras, também carrega a força das águas de Oxum".
Conversador incansável, às vezes deixa escapar fragmentos de suas vivências passadas. Conta que sofreu muito quando foi escravizado, segundo ele, esse período de imensa dor, também ajudou a formar muitos espíritos fortes. E, apesar das dificuldades, revela com certo orgulho que foi muito namorado em sua época. Em suas rezas, invoca sempre as forças das matas e das águas, e em certos momentos diz: "a mesma força que a água tem pra levar tudo de ruim embora, que essas águas se renovem e lhe tragam coisas boas, meu fio."
Em seu depoimento, Anita nos revela, por meio de uma pergunta, que existem muitos mistérios que só são desvendados quando alcançamos discernimento, maturidade emocional e espiritual: "agora, você pode estar se perguntando por que iniciei este relato falando de outro Centro. Explico: lembra daquele Preto Velho que veio para me dar um recado anos atrás? Pois bem, depois de muito tempo trabalhando juntos, meu Vô me confessou que era ele! E que já me conhecia de outras vidas e revelou que temos uma missão em comum: fortalecer a Umbanda e levar amor e caridade àqueles que precisam".
Finaliza rememorando uma das frases do Vó Joaquim das Cachoeiras: "e como diz a quase todos que passam por ele:"Ocês veio a esse mundo pra sê feliz, minha fia, nada menos que isso." Essa é a frase que levo sempre comigo, lembrando que nosso propósito maior é a felicidade! Vô, minha gratidão infinita por tanto amor e carinho com esta filha imperfeita, que ainda tem tanto a aprender com o senhor."
Adorei as Almas!
Salve os Pretos Velhos!
PONTO CANTO DE PAI JOAQUIM DAS CACHOEIRAS
NOSSO PAI ZAMBI
Pai Joaquim das Cachoeiras
És um filho de Xangô
Com bengala e muita erva
És também meu protetor
Vem Preto Velho
Relevar minha esperança
Nesses dias tão insertos
Me ajudai a ter fujança
A cachoeira, observo com atenção
É do forte dessas aguas faço logo oração
Pai nosso Zambi, alimenta os filhos
Perdoai todos os aflitos
E nos traga redenção
Oh! Conceição, apartai nossos conflitos
Atendei esse seu filho
Preto Velho é oração