Por Gilda Portella[1]
As poesias de Flozino Rocha da Silva revelam uma escrita marcada pelo afeto, pela saudade e pelo forte vínculo com a terra natal. Em seus poemas, Torixoréu aparece como espaço de pertencimento, memória afetiva e reencontro, onde a infância, a família e as tradições locais ganham dimensões poéticas, estéticas e éticas. Com linguagem simples e delicada, o poeta transforma a rotina em registro sensível da história e da identidade do município, mantendo, por meio da escrita, paisagens, afetos e valores que atravessam gerações.
Seleção da Poesias
1. Velha Chácara- (Novembro/1984)
Velha chácara! Resumo de minha vida.
Oh! Pedaço da infância que não volta mais.
Eu quisera ver-te novamente florida,
Como nos meus tempos de rapaz.
Velha chácara. Tu falas, à sua maneira,
Do trabalho, da fé e da alegria sem fim,
De família humilde, mas ordeira.
Se tu te acabas, tudo se acaba pra mim.
Tu conservas lembranças de outrora.
Vendo-te, vejo a minha mãe tão querida,
Mulher de fibra que te fez nascer.
Vendo-te desprezada a minha alma chora.
Quero que sejas bela e eterna ermida.
Pra quem doou-nos a si até morrer...
2. Nova chácara- (Fevereiro/1992)
Que alegria ver-te de novo florida...
Renascendo firme para a história.
Tu és o símbolo de família unida
Que te ama e tem no amor sua glória.
Não importa o ouro da reconstrução.
Vale mais o que representas às nossas vidas.
Tu dirás aos passantes que te olharão
Que fostes o lar de pessoas indormidas...
Tu dirás sempre de dona Flicidade
Serás no futuro como fostes outrora
Local de passeio de lindas moças em lazer...
Ainda vibrará contigo minha cidade
E mamãe se orgulhará lá do céu onde mora
Porque não te deixamos morrer...
3. À Samurai Akiko
Cada vez que estou longe de ti
As emoções se apossam e tomam conta de mim
Sinto, então, cousas que nunca senti...
Não vejo flores no meu triste jardim.
Minha vida se torna árido deserto...
Meu pensamento foge e se torna vazio
Você longe _ eu queria tê-la bem perto...
Meu olhar se perde e me vem súbito arrepio...
A distância me traz fortes sentimentos
Ela me dá a certeza que a amo tanto...
Esta é a verdade que tu precisas saber.
Desejava-te ao meu lado nestes momento
Seríamos capazes de chorar junto, garanto.
Eu, de pura emoção e tu só por me ver...
4. 23 de junho de 1993
Hoje andei, andei - andei bastante...
Andei por estradas poeirentas, sem fim...
Andei só. Andei como se fora um errante...
Andei angustiado à procura de mim...
Procurei-me no passado, por todo lugar...
Procurei-me na infância por onde passei...
Procurei-me na roça onde eu ia trabalhar...
Procurei... procurei... e não me encontrei...
Procurei-me na escola onde eu estudava...
Procurei-me nos colégios onde anos havia passado...
Procurei-me no Banco onde os anos se somaram...
Procurei. Procurei... e não me encontrei...
Procurei-me então no presente e lá eu estava!!! ...
Um homem já maduro e meio alquebrado...
Cabelos brancos... e vi que 51 anos se passaram.
5. Que será a vida?
Será uma emoção vivida que ficou para trás?
Ou será uma dor doída que machuca o coração?
Será o tempo que passou e que não volta mais?
Ou será a melodia suave de uma canção?
Será a ilusão de um sonho a se realizar?
Ou será a desilusão de um amor perdido?
Será a força de cair e se levantar?
Ou será a fraqueza de se ficar caído?
Será o bom filho que afaga os pais com alegria?
Ou será a ingratidão do filho que fere os pais?
Será o arco-íris da aliança prometida?
Ou será o sol que nasce para um novo dia?
Deus me diz: é tudo isto e muito mais,
É a ânsia da vida pela própria vida...
6. Joana - (à máquina quente nos seus 15 anos – 20/03/1987)
Tu que és menina, és já moça e és bela
Tens a candena de anjo e a magia da sereia
Tu és mais que tudo – Tu és Joana
Passo-lhe hoje a rosa = símbolo de quem ama
A ti menina que já és moça
Receba a chave para seu coração que já ama
Tu que eras menina, e já és moça e és bela
Tu serás dos rapazes a feiticeira e cinderela
Serás mais que tudo – serás sempre a minha Joana.
7. Torixoréu - (07/04/1996)
Ó terra minha, muito doce e amada!
Que deste teu seio para nascer...
Tu me encantas mais que uma fada...
Torno-me criança perto de você!
Tens o condão de me devolver a alegria.
A cada vez que volto a te abraçar.
Sou-te grato, sempre, e a cada dia.
E só peço a Deus queira te guardar...
Nos teus braços nada mais quero, sou feliz.
Vejo-te sempre bela e cheia de paz...
Conservas a mesma ternura de outrora!
Viver de novo, ao teu lado, sempre quis...
E espero um dia não te deixar jamais...
Quero morar onde minha alegria mora !!!
8. Torixoréu, mais uma vez
Mais uma vez vim ao teu encontro.
Peito cheio de emoções contidas.
Profundas e tantas que nem as conto.
Falam de lutas e alegrias aqui vividas...
Longe de tudo e todos – perto de ti
Quero sentir-me como outrora
Andar pelos lugares por onde corri
Nem o silencioso coração chora.
Não importa. Isto é bom, é um desejo.
Abraço-te no sonho, sinto que cada vez que me lembro de ti fico louco
Nada melhor no mundo eu vejo que cada vez existe
Que voltará quem um dia partiu, e sempre a abraçarei...
9.Torixoréu, terra do coração da gente - (1988)
Torixoréu, terra querida do coração da gente
Terra de minha infância, de amores e ilusões.
Forjastes, na luta, minha alma e minha mente na fé ardente.
Marcastes-me a vida de emoções.
Da infância, guardas-me só alegrias
Dos amores, os momentos mais felizes
Das ilusões, fiz delas minhas alegorias
Que me entretêm. Só coisas boas me dizes!
Sepultastes no tempo meus dias mais lindos
E os devolves para minha doce recordação
A cada vez que venho te abraçar!
Mesmo que todos os motivos fossem findos
Tu ainda terias inteiro meu coração
Pois guardas, no teu seio, mamãe a me esperar.
10. Minha amada Torixoréu
Quando na chegada, do alto ao longe te vejo
Sinto um misto de alegria
Meus olhos brilham em puros lampejos
Minha alma se extasia em puro amor.
Só neste momento a saudade é vibrante
Porque me brinda como uma paz sem igual
Mas quando de ti estou distante
A saudade me machuca e me faz mal.
Ver-te é como repousar após longo trabalho
É a calma que segue ao vendaval
O cansaço da viagem a gente nem chega de sentir
Tudo parece um sonho
Que infelizmente não é eterno, tem o final
E tenho que voltar. Para tudo se repetir...
11. Noite de lua em Torixoréu
Noite minha, note sua, noite de ninguém
Noite de prata que envolve minha terra
Mais bonita que você não tem
Ao vê-la meu coração agita e logo acelera
Longe, no horizonte, o Estado de Goiás
Perto, luzes que piscam meio desmaiadas
Pálidas e miúdas esperando que te vás
Para que tenham vida e possam ser notadas
Do meu quarto, em silêncio e só, te aprecio
Nem o forte cansaço me convida a dormir
Tal a mágica alegria
De ti não se enamora quem nunca te viu
Tu falas de amores, tu me fazes sentir
Quanto é bela a vida neste lugar...
12. Sentimentos d’alma a Torixoréu
Alma minha que vibras e me sustentas
Que me animas e nas dores me consolas
Afaste de mim as fortes tormentas
Quebre dos meus ais as duras argolas
Conserve no meu peito, sempre, o coração puro
Que ame cada vez mais a minha terra
De quem sou e serei fiel defensor, eu juro
Graciosa os meus desejos e sonhos encerra
Permite que repouse neste chão meu corpo
Não o deixes longe daqui ficar
Quando for chamado a mudar de moradia
Aqui eu sou livre, feliz, vivo, leve, solto
Como o tico-tico, voando sem parar, igual uma cotovia
E a noite chega sem se ver o dia passar
Vejo que tenho dois grandes corações
E cada um manda em mim
Um decide e vive as muitas emoções
O outro me chicoteia muito.
13. Lua cheia, em Torixoréu, Samira!
A luz de prata penetra meu solitário quarto
Nem me é preciso acender a lamparina
Num carrossel de saudades então eu parto
De ricas imagens minha alma se ilumina
A beleza é demais! Não posso registrá-la
As palavras são acanhadas e não me dão valia
Minhas ideias somem. Minha voz se cala ...
Não bebi! Nada me dói! Mas estou em agonia!
Sentimentos puros me desnudam, sem pudor
Me machucam, trituram, mas fazem-me renascer!
Arrepios me vêm. Já sinto gélido frio...
Maior que tudo isto só mesmo o imenso amor
Que me faz acordar e voltar para você
Gostosa fraqueza de quem parece ser bravio ...
14. Torixoréu
Altaneira, simples, bela e acolhedora
Cheia de feitiços e magia sem par
És o presente de um passado que se foi
És a alegria viva de quem soube sonhar
Tu mostras o rumo se estou incerto
Apontas o futuro se quero parar
Longe de ti eu já seria um deserto
Não teria água e nem grande mar
Somos unidos desde o começo
E isto será sempre assim, eu penso
Não importam os tropeços em nossos caminhos
Tributo-te de coração todo o meu apreço...
( inacabada ...)
Todos meus sentidos prestam a ti admiração
Com sentimento de saudade que sempre me invade
À noite, em meus sonhos, sempre a tenho
Sozinho desejo-te cada vez mais viva
Com prazer de receberdes os filhos teus
Devotado a ti minha eterna terra natal
Inspirei também aos meus este amor sem igual
Acalente-os , já que não mais posso, como se foram
nossos
15. À minha doce Torixoréu
Ó terra minha doce e amada
Que deste teu seio para eu viver
Tu me tocas mais que uma fada
Torno-me criança perto de você.
Tens o condão de devolver minhas alegrias
A cada vez que volto a te abraçar
Sou-te grato sempre e a cada dia
Só para si Deus queira te guardar
Nos teus braços nada quero. Sou feliz
Vejo-te sempre bela, cheia de paz
Conservas, de outrora, a mesma ternura
Viver, de novo, ao teu lado
Espero um dia não te deixar jamais
Quero ficar onde minha alegria mora.
16. Despedida - (07/04/1996)
Mais uma despedida... emoção e mais uma dor...
Que não perdoam o coração de ninguém!
Desde o amanhecer, no rosto de quem for,
Há a marca do amor e do querer-bem...
No almoço, todos querem me servir...
Cada um quer ficar mais perto de mim.
As crianças assanhadas, ficam por ali...
Vêm as falas,falas,recomendações... É sempre assim...
“E o ônibus”, será que vai chegar?
“Pudera que não”, seria bem melhor...
Mas, que adianta, se tenho que partir?
Enfim chega... Saio correndo para embarcar...
Olhos rasos d’água... e na garganta um nó!...
Na cabeça a decisão: logo tenho que vir...
17. Duas vidas - ( 1983)
Duas vidas – que lindas as vidas de meus filhos!
Sorrindo sem preocupação pelo amanhã.
Estão sempre vibrando, cantando os estribilhos
Num mundo de fracos, se parecem com titãs
Todos os dias bem cedo – pelo pai acordados
Fazem o asseio. O desjejum e à escola.
Ao meio dia, após todos almoçados
Brincam de Dama, baralho e jogam bola.
Mais tarde, livres, podem até dormir
Preparam os seus deveres de alunos
Tranquilos – de espíritos leves e sós
Esperam depois pelos pais para com a noite devem vir
Veem televisão e voltam em sons profundos.
Noutro dia tudo recomeça – ouvindo a mesma voz.
À mesma rotina. Até que noutro dia ouvem a mesma voz.
18. Devaneio
Carrancuda, a noite engoliu o dia
Os últimos raios de sol agonizavam
Andando só, pelas ruas eu percebia
Pessoas elétricas que nem se olhavam
Andei por momentos, rápido e, numa praça,
Em meio a uma agitação sem fim,
Parei e até achei graça
De um mundo louco perto de mim
Pessoas corriam de lado
Umas a encher ônibus, em desespero
Outras filas enormes, de desanimar...
Então percebi que estando ali parado
Estático, era eu um louco verdadeiro
E caminhei até em casa, sem notar.
19. Dia das Mães - (13/05/1984) ( Às minhas Irmãs)
Quando o mundo todo alegre se prepara
Para tributar-lhe o mais sagrado afeto
Sinto n’alma uma saudade tão rara
Que me faz um homem triste e irrequieto.
Porém, num mistério de Deus tão profundo
Tu te diferes de mim e podes sorrir
Porque és a maior riqueza do mundo
Embora órfã, a teus filhos fazes sorrir
Também eu me junto a eles agora
E num gesto de amor sem fim
Te ofereço esta flor tão singela
Que igual a ti, neste dia chora
Com aqueles que sem mãe, mesmo assim
Finge que, no mistério, faz o papel dela.
20. Natal em Torixoréu - (1998)
Quando se celebra o início da vida
Palavra mágica que contagia a todos e traz emoção
Às crianças, jovens e velhos de forma incontida
Onde se abraça, se ama e se dá o perdão
Quantas vezes longe daqui eu passei
Recolhido, sem o calor da família, sozinho
Recordando das cousas boas que aqui deixei
Sem dinheiro, sem nada, nem amor e nem seu carinho
Hoje já depois de anos e anos passados
Revivo toda a emoção na terra onde nasci
A data é a mesma, só as cousas de outrora mudaram
Já estou maduro e um tanto alquebrado
Papai inválido e mamãe já não está aqui
A alegria ficou triste e minha alma chora.
21. Natal do Papai - (1999)
Mesmo deitado sua presença nos estimula
Mesmo em silêncio nos fala de uma fé
Que não tem limites e nem se calcula
Corrente de ferro que nos mantém de pé
Tenho certo que o senhor bem sabe
Do quanto o amo e lhe quero bem
Embora a rudeza minha alma invade
Herança que me seguirá até o além.
Nos dias que sozinhos e juntos passamos
Meu coração muito amor lhe devotou
Em gestos simples mas cheio de pura emoção
Só os registros de Deus que não vemos
Têm às vezes que de amor e minha alma chorou
Por este pai que, embora rude, é e será meu amigo.
22. Minha amiga Lobinha- ( uma pequena vira-lata)
Dócil, obediente, amiga sincera
Doou-se toda e só a mim na viagem
Que não pediu e da qual ninguém lhe dissera
Que tudo lhe parecia louca miragem
Não chorava, não dormia e nem água bebia
Quieta, ora sentada ou deitada, submissa
Mais que a boca seu olhar dizia
Da angústia que lhe pesava como premissa
Só no término, trêmula e abatida veio a beber
E comer ligeira e tada da sua ração
Meio tonta e ainda sem saber da vida nada
E vi então, neste quadro, bem estampada
Como é doída a vida de um cão
Que não perdoa a sina de um pobre cão.
23. Torixoréu, um pedacinho do céu
Dilson Oliveira janeiro/1998 - (marchinha carnavalesca, encomendada por Flozino ao compositor e musicista, de acordo com as lembranças que lhe eram prazerosas)
Terra amiga de ti não esqueço
Das praças e floridos jardins
Nas barrancas do Rio Araguaia, és pedra preciosa
Berço gentil que me viu nascer.
Refrão: Torixoréu, Torixoréu, meu canto adorado, um pedacinho do céu (bis)
Tuas praias de areia branca
Onde corri em criança, vou de novo rever
A lapinha de Dona Rolinha
Ficou na lembrança, me alegrava o viver
A Cachoeira das Sete Quedas
Pedra da Balisa e Praia do Leléu
Salve, salve São João Bosco, Padroeiro
Protegei este teu filho
Que jamais vai te esquecer.
24. Não me pergunte
Como entende estudado um homem vivendo assim
Longe das pessoas e do mundo culto isolado
Só vendo animais espalhados no meio do capim
Acordando antes do sol para dar conta do recado
Por que deixar os escritórios e abraçar a lida
Onde o trabalho é duro e pouca a recompensa
Onde o sol queima a pele e o corpo castiga
Onde o homem tem na luta e no trabalho sua crença
Como trocar a leveza de papéis pela dureza da vida
Como abandonar anos de estudos muitos sofridos
Para voltar ao desafio duro da zona rural?
Aqui o dia é cheio e a natureza é florida
Aqui não faço conta dos dias idos
Aqui vejo Deus nos pássaros do meu quintal.
25. Oh! Torixoréu - (1998)
Oh Torixoréu, sua história eu vou contar
Onde era um porto de passagem para os que faziam viagem
Para Goiás visitar através do Araguaia
Até a Baliza chegar
Esse porto sustentava a região ribeirinha
Trabalhadores pioneiros como bons brasileiros apelidaram Balizinha
Hoje é Torixoréu, uma cidade rainha.
Oh! Torixoréu, cidade jovem, de futuro brilhante,
Do turismo e agricultura, pecuária de fartura
Também terra do diamante
Torixoréu é potência de um município gigante
Oh! Torixoréu, berço da própria natureza,
Da cachoeira Sete Pancadas, Ponte de Pedra admirada
Vem conferir que beleza.
Pedra da Baliza e a usina que mantém a cidade acesa.
Ah! Que saudade, da embarcação do Sergipe,
Do Porto do Teodoro no coração sempre existe.
Grande região da Sobra, também do Félix Bittar
E da Praia do Leléu, que vontade de voltar.
Rio São Francisco e São Domingos são belezas exteriores
Terra de hospitalidade, Torixoréu é cidade construída com amor
É a cidade do progresso, orgulho do interior
A praça Dona Vitória, e a linda Igreja Matriz
Lojas, bancos e hospitais, cada vez aumenta mais
Terra de um povo feliz
Árvore e praça é bem cuidada, é cultivando a raiz.
Oh! Torixoréu, é uma luz sempre acesa
É o orgulho de seu povo, sempre chega sangue novo
É progresso com certeza
De um vilarejo nasceu uma cidade Princesa!

Poesias de Flozino transformam memória, afeto e identidade em retrato sensível de Torixoréu.
A Torixoréu dos seus encantos, não é um mero ponto geográfico, é presença viva, espécie de refúgio emocional, encruzilhada de reencontro, fonte de pertencimento e identidade. Em seu olhar poético a cidade é visitada com o encanto da infância, a plenitude adulta ou em sonhos iluminados pela lua cheia, nas despedidas e em retornos saudosos de quem viajou pelo mundo, guardando na alma a bússola onde o N de norte foi substituído pelo T de Torixoréu; enfim quem sabe de onde veio, conhece o caminho de casa.
Na memória familiar Flozino via um céu estrelado onde a mãe magnetiza sua sensibilidade para o trabalho, fé, formação ética e moral, a imagem do pai é guardada com respeito e gratidão, apesar das limitações impostas pela doença e a idade avançada. Neste horizonte os filhos brilham como símbolo de continuidade e esperança, em cenas prosaicas sublimam o cotidiano, a escola, as brincadeiras e as trocas afetivas da convivência doméstica.
O amor, em suas múltiplas formas, atravessa os poemas com delicadeza e intensidade. Seja no amor romântico a esposa Samira e ao afeto marcado pela distância, seja no carinho dedicado aos familiares ou no cuidado afetuoso com os animais de estimação, suas rimas espelham uma sensibilidade voltada para os vínculos e trocas no seu entorno numa visão empática na capacidade de se colocar no lugar do outro.
Introspectivo, o poeta revisita o passado, refletindo sobre o tempo, a vida, o dia das mães, o natal, como expressões da condição humana, em confronto com as marcas da idade, o sentido da vida, equilibrando sofrimentos, tristezas e esperança, perdas e aprendizados. Neste versejar, o fluxo da narrativa torna-se confissão e crônica existencial, conectando o leitor às experiências universais.
Além do lirismo pessoal, parte da produção assume caráter quase etnográfico, documental, ao registrar elementos históricos, geográficos e culturais de Torixoréu, como portos, rios, cachoeiras, festas religiosas e espaços públicos. Esses poemas funcionam como memória escrita da cidade, preservando paisagens e tradições que ajudam a contar a história local a partir do olhar de quem a viveu, sentiu e honrou.
Em conjunto, a poética de Flozino Rocha da Silva é um testemunho sensível de pertencimento, onde a palavra guarda o que o tempo insiste em levar. Seus versos expressam sentimentos individuais, enquanto constroem narrativa afetiva sobre família, fé, trabalho e identidade, reafirmando a poesia como forma de resistência da memória e de celebração da vida simples.

Releituras e Homenagens
Para o sobrinho-neto Marlon Carvalho de Sousa Rocha, servidor da Justiça do Trabalho em Mato Grosso, mestre em Direito e escritor, ter acesso aos versos de Flozino Rocha da Silva foi uma experiência de profunda emoção, que reviveu a memória do tio e também de sua bisavó, Dona Flicidade, a quem não conheceu em vida — nasceu em 1989, enquanto ela faleceu em 1978 —, mas cuja visão sobre o poder transformador da “caneta” guiou o destino de toda a família.
Em depoimento, Marlon relata: “Ter acesso a essa antologia poética de autoria do nosso tio Flozino foi uma experiência que me encheu de emoção e reacendeu sentimentos guardados no coração. A divulgação dessas poesias é mais do que um ato de preservação documental; significa honrar uma trajetória marcada pela fé, pela educação e por um amor incondicional às raízes.
A escrita do tio Flozino mergulha na essência do existir, definindo a jornada humana como a ‘ânsia da vida pela própria vida’ e o retorno a Torixoréu como um ‘repousar após longo trabalho’. Poemas como Velha Chácara e Nova Chácara carregam o peso simbólico do lar e da união familiar, enquanto o verso ‘Torixoréu, terra querida do coração da gente’ consolidou a identidade e o sentimento de pertencimento de todos nós à terra natal.
Esse sentimento era realimentado, em cada irmão, sobrinho e neto, pela ansiedade do retorno a cada fim de ano para as festividades organizadas pelo tio Flozino. Eram momentos aguardados para desfrutar da companhia de toda a família Rocha, especialmente de minha saudosa avó e de minha tia, irmãs do tio Flozino: as professoras Alice Rocha de Sousa e Ergina Rocha Portella, cujos exemplos de vida também se entrelaçam a esse legado de educação.
O apreço pela terra natal me incentivou a atos concretos de amor a Torixoréu, como o lançamento do meu primeiro livro literário, Gota d’Água, no ano 2000, durante as celebrações da Festa dos Filhos Ausentes. Esse legado permanece vivo na identidade familiar, refletido, inclusive, na decisão de minha esposa em adotar o sobrenome Rocha, uma deferência direta ao homem que concretizou o sonho de voltar para viver definitivamente onde sua alegria morava.”

O neto Miguel Afonso S. L. Rocha da Silva, conselheiro tutelar e estudante de Engenharia Civil, relembra com carinho a forma simples e afetuosa com que o avô cuidava dos netos, sempre incentivando o contato com a natureza e o amor por Torixoréu. “Era do jeito dele, sem frescura”, diz.
Segundo ele, o avô tinha uma maneira especial de conquistar os netos sem precisar de broncas ou castigos. “A gente tinha uma ‘liberdade total’. Podia escolher o que fazer, dormir sem tomar banho, assistir TV até tarde, comer besteira de madrugada”, recorda, saudoso.
As brincadeiras e travessuras faziam parte do aprendizado. Ele conta que o avô os levava para a Chácara Capim Branco para caminhar, colher flores para a avó (Samira) e enfrentar desafios típicos da infância no campo — entre eles, até rolar em bosta de vaca, como prova de coragem e de que já eram “cabra macho” —, lembranças que hoje viram histórias contadas com riso e emoção.
Em depoimento de Carolline Egues Lotfi Rocha, neta e estudante de Arquitetura, relembra com carinho o avô, Flozino Rocha da Silva, a quem chamava de Vô Ninino. “Ele era a minha pessoa favorita no mundo. Os dias mais felizes eram quando eu estava com ele em Torixoréu”, afirma.

Entre as lembranças, estão as manhãs no curral, indo buscar leite bem cedo, enquanto ele cantava uma música que sempre errava, mas que até hoje ela guarda como trilha das memórias felizes. “Depois voltávamos para a chácara com leite quentinho e, no caminho, recolhíamos flores do campo para presentear as mulheres da família. O melhor buquê era sempre da vovó”, conta.
A saudade, segundo ela, é diária. “Te amo para sempre, meu eterno Vô Ninino”, finaliza.
Já para Evalton Rocha dos Santos Júnior, poeta, administrador de empresa, advogado, servidor público, acima de tudo pai de um casal de filhos, herdeiros de um folclore dessa terra encantada, nos brinda com versos sensíveis sobre a escrita literária de seu tio-avô, Flozino Rocha da Silva, celebrando, em poesia, a memória, a terra e os afetos que atravessam sua obra.
Ler as poesias deixadas por ti,
meu admirado tio Flozino,
é abrir uma porteira antiga,
é deixar a memória correr solta,
pelos campos da emoção…
Cada verso carrega mais do que palavras,
carrega presença, afeto, dedicação,
e uma sensibilidade rara, própria,
de um homem verdadeiramente bom…
Não são apenas poemas.
são registros de sentimentos.
Nos seus textos vivem,
o amor profundo pela família,
o respeito pelas origens,
a paixão inabalável por Torixoréu…
A cidade aparece em teus versos,
como um lugar sagrado, quase vivo.
Onde a infância mora,
onde a alma repousa,
onde o filho ausente,
sempre quer voltar…
Ao ler em lágrimas teus poemas,
fui tomado por lembranças,
que nem sabia ainda guardar…
Vieram emoções silenciosas,
recordações suaves e,
e a dor bonita de quem reconhece,
o valor de alguém,
que já partiu,
mas nunca se ausentou de verdade…
Escreveste com o coração!
Permanecerás para sempre!
É assim que suas poesias ecoam,
como um canto de retorno,
como voz que atravessa o tempo,
como ponte entre quem ficou,
e quem partiu…
Tio Flozino foste homem de fé,
de caráter e de ternura.
Poeta da própria vida!
Deixaste em cada linha,
o retrato da tua emoção,
gravada no coração da gente...
A leitura não foi apenas,
um reencontro com seus escritos,
mas um reencontro contigo…
Nessa sensação que mistura,
admiração e gratidão,
fica a certeza de que seu legado,
continua vivo!
Pulsando em palavras,
que nunca envelhecem!
Com carinho, respeito
e eterna saudade…
“Junior do Evalton”
Janeiro/2026
[1] Sacerdotisa de umbanda, multiartista, escritora, coafrofundadora do Coletivo Herdeiras do Quariterê, mestre em Estudos de Cultura Contemporânea da UFMT. Membra do LATINAS – Grupo de Pesquisa sobre Decolonialidade, Trabalho e Cuidado do CNPq.






























