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08 de fevereiro de 2026

Entre passos, cantos e promessas: a travessia da Folia de Santo Reis pelas comunidades

Cultura 02/01/2026 22:38

 Por Gilda Portella*

No compasso da cantoria, da promessa e sob a proteção dos Santos Reis Magos, a Folia volta a percorrer estradas, fazendas e comunidades do leste de Mato Grosso, renovando uma devoção que atravessa gerações. Nos dias 9 e 10 de janeiro de 2026, o distrito de Alcantilado, em Guiratinga (MT), será novamente o ponto de encontro dessa celebração que transforma fé em gesto coletivo e memória em festa.

O ciclo da tradição começou no dia 21 de dezembro, quando a bandeira deixou a igreja do Alcantilado e tomou os caminhos do giro, anunciando que o tempo da Folia havia chegado. Desde então, o pano sagrado segue de casa em casa, de comunidade em comunidade, carregando promessas, agradecimentos e esperanças. No dia 22, passou por Torixoréu (MT); no dia 23, cruzou divisas e alcançou Baliza (GO), em um itinerário bordado por cantos, partilhas e hospitalidade.

À frente da organização da festa estão as festeiras Maria Helena e Juliana Arruda, guardiãs de um saber que se renova a cada ano sem perder o chão da tradição. Mais que um evento religioso, a Festa de Santo Reis é território simbólico: ali, a peregrinação vira reencontro, o canto vira oração e a mesa partilhada vira comunhão.

MT HOJE

A musicalidade que embala o cortejo nasce da união de vozes, caixas, bumbos e gaitas, conduzidas por foliões de diferentes idades, que aprendem e ensinam enquanto caminham. Integram o grupo: Osvaldo (Valdo), 73, cantador e tocador de caixa; Eduardo (Carretinha), 42, bumbo e caixinha; Francisco Neres (Chico), 61, cantador e gaiteiro; Manoel Lima (Salvin), 59, cantador e gaiteiro; Edilon Mesquita, 32, triângulo e caixinha; Ruan Mendes, 18, caixinha e pandeiro; Cristofer Eduardo, 20, caixinha e bumbo; Alphe Nunes (Fefezinho), 31, caixinha e bumbo; Valdivino, 72, palhaço-guia; Djair Fiage (Dja Careta), 65, palhaço da bandeira; Lucas Carvalho (Lucas Careta), 34, caixa e triângulo; José Antônio (Zé Antônio), 69, bumbeiro; Douglas Cunegundes, 21, caixa e triângulo; Sinésio José, 74, cantador e gaiteiro; e Adenor Cordeiro (Baiano), 71, gaiteiro e tocador de triângulo.

Entre os mais antigos, há quem caminhe com a Folia há mais de quatro décadas. Seu Sinésio carrega cerca de  45 anos de cantoria; Seu Adenor, com 40 anos de estrada e devoção, como destaca Eduardo. São memórias que não se guardam em papel, mas no corpo, na voz e no ritmo dos passos.

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Entre os mais jovens está Douglas Cunegundes, de 21 anos, que acompanha a Folia desde a infância. Há três anos, assumiu a função de caixeiro, marcando o pulso do cortejo e mostrando que a tradição não é apenas herança: é escolha, aprendizado e continuidade.

Há cerca de uma década, Dja Careta, palhaço da bandeira, também segue no giro, levando consigo não só o riso ritual, mas a própria família: o filho Eduardo e os netos Cristofer e Ruan. Três gerações caminham juntas, traduzindo em passos o modo como a cultura popular se perpetua — de mão em mão, de canto em canto, de pai para filho.

No último domingo, a passagem da Folia pelos bairros de Guiratinga foi acompanhada pelo fotógrafo e documentarista César Augusto, que registrou, em imagens sensíveis, os gestos da fé e os encontros do caminho. Fotografias que revelam não apenas a festa, mas o que pulsa por trás dela: pertencimento, memória e a certeza de que, enquanto a bandeira seguir em giro, a tradição continuará viva no coração do território.

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*Sacerdotisa de umbanda, multiartista, escritora, coafrofundadora do Coletivo Herdeiras do Quariterê, mestre em Estudos de Cultura Contemporânea da UFMT. Membra do LATINAS – Grupo de Pesquisa sobre Decolonialidade, Trabalho e Cuidado do CNPq.