Vicente Manuel da Silva, conhecido como Vicentinho, morreu na última terça-feira (5) e deixou um legado na preservação da cultura Guató, além de mais de 60 gatos que ele cuidava em sua casa no Pantanal. Uma ONG vai avaliar o destino dos animais.
O indígena Vicente Manuel da Silva, conhecido como Vicentinho, morreu nessa terça-feira (5), deixando um legado de décadas na preservação da cultura e língua do povo Guató, na região pantaneira entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Ele viveu por anos em uma região isolada às margens do Rio São Lourenço, em uma casa de barro onde cuidava de mais de 60 gatos, que ainda estão sem destino definido.
Nas redes sociais, a ONG É o Bicho MT, que atuou na castração dos animais de Vicente em 2021, lamentou a morte e publicou um vídeo mostrando ele e os gatos em casa. Já a página Documenta Pantanal relembrou a trajetória do idoso e republicou um documentário do qual ele participou em 2018, ensinando a língua indígena.
- Vicente vivia em uma casa de barro às margens do Rio São Lourenço, no Pantanal.
- Ele era um dos últimos falantes da língua Guató.
- A ONG É o Bicho MT castrou os gatos em 2021.
- Os gatos têm comportamento selvagem, caçam para se alimentar.
- ONG vai avaliar o bem-estar dos animais antes de decidir o destino.
Ao Primeira Página, a presidente da ONG É o Bicho, Jenifer Gonçalves Larrea, explicou que as dezenas de gatos cuidados por Vicente nasceram na região pantaneira e sempre apresentaram comportamento diferente dos felinos domesticados, por viverem em uma rotina selvagem.
Ainda conforme a presidente, Vicente enfrentava problemas musculares e fortes dores pelo corpo antes da morte, o que dificultava atividades como caçar e pescar para alimentar a si próprio e os gatos.
Entretanto, justamente pelo comportamento mais selvagem dos felinos, a ONG afirma que não há indícios de que eles estejam desamparados ou passando fome.
Esses animais têm essa característica de caça, busca pelo próprio alimento. Então, não necessariamente agora, com o falecimento do Seo Vicente, eles estão sem alimentação, disse Jenifer.
Mas, diante do caso, representantes da organização pretendem retornar ao local em que o idoso vivia para averiguar a situação de saúde dos animais e a possibilidade de destiná-los a outro ambiente.
Avaliação técnica da ONG
Ainda não é possível afirmar que retirar todos os gatos seja a melhor solução. Antes de qualquer decisão, é preciso avaliar o bem-estar dos animais, os impactos sobre a fauna silvestre e as condições do local. Existe, sim, uma preocupação do ponto de vista da conservação, já que esses gatos predam animais silvestres para sobreviver. No entanto, essa não é uma situação nova. Mesmo quando o Sr. Vicente já não conseguia alimentá-los diariamente, os animais apresentavam bom estado corporal, indicando que já obtinham alimento por meio da caça.
A logística até o local onde Vicente vivia é complexa e leva em torno de seis horas de navegação pelo São Lourenço, como explicou a representante. Estamos levantando informações com conhecidos lá da região para que a gente entenda melhor o cenário e qual será a forma de atuação da ONG, disse.
Legado de preservação animal e cultural
Na publicação em homenagem a Vicente, a ONG mato-grossense afirma que a história do indígena motivou a criação de uma ação inédita voltada à saúde animal e à castração de gatos nas comunidades ribeirinhas da região onde ele vivia.
O Sr. Vicente nos ensinou que cuidar é, acima de tudo, um ato de amor, dedicação e respeito pela vida. Nossa gratidão por tudo o que vivemos ao seu lado. Que Deus o receba em paz e conforte todos os seus familiares e amigos.
Já a iniciativa Documenta Pantanal, projeto que busca conversar beleza e vivências na região mato-grossense, republicou nesta quarta-feira (5), o documentário Ruivaldo, O Homem que Salvou a Terra, produzido em 2018, com a participação de Vicente.
Em um trecho do documentário, os gatos de Vicente aparecem aos pés dele, como fiéis companheiros em um ambiente que não era visitado por quase ninguém ao longo dos anos, como o próprio indígena afirmou.
Ainda conforme a organização, o idoso passou os últimos anos de vida se dedicando a ensinar a língua guató a linguistas e professores de aldeias próximas, como forma de preservação histórica e cultural.
Que seus conhecimentos continuem sendo compartilhados pelas próximas gerações, diz trecho da publicação em homenagem ao idoso.
Segundo o Conselho de Lideranças do Povo Guató no Pantanal, Vicente era um dos últimos falantes dessa língua indígena.
O Instituto SOS Pantanal também se manifestou com pesar sobre o falecimento de Vicente Manoel da Silva. Na publicação, a organização citou que o idoso era considerado guardião da língua e cultura e que passou a vida ensinando como viver em harmonia com o Pantanal.


Guardião da cultura indígena Guató morre deixando mais de 60 gatos com futuro incerto no Pantanal. - Foto: Instagram/Reprodução







