O presidente da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul, Sérgio Longen, conseguiu desbloquear seus bens na Justiça sete anos após uma investigação da Polícia Federal. Enquanto isso, novos contratos e ligações entre empresas do Sistema S continuam sem explicações claras, levantando suspeitas sobre o uso do dinheiro público.
O presidente da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul), Sérgio Longen, conseguiu na Justiça Federal o desbloqueio dos bens que estavam bloqueados desde 2019. Naquele ano, a Polícia Federal iniciou a Operação Fantoche, que investiga suspeitas de desvio de dinheiro do Sesi em vários estados brasileiros.
Mesmo com a decisão judicial liberando os bens, isso não acaba com as dúvidas sobre a investigação ou sobre como o dinheiro do Sistema S está sendo administrado. A defesa de Longen argumentou que, até agora, o Ministério Público Federal não apresentou nenhuma denúncia criminal contra ele.
- O que é a Operação Fantoche É uma investigação da Polícia Federal que começou em 2019 para apurar suspeitas de roubo de dinheiro do Sesi, um órgão que oferece serviços para a indústria.
- Por que os bens foram liberados O juiz federal Jorge André de Carvalho Mendonça entendeu que já se passou muito tempo desde o início da investigação, então não fazia mais sentido manter o bloqueio dos bens.
- O que a Fiems diz sobre os novos contratos A federação e o Sesi não responderam aos pedidos de explicação sobre contratos milionários com empresas que têm ligações com a própria diretoria da entidade.
- O que é a empresa Blackbird É uma empresa contratada pelo Sesi que foi criada recentemente. Os donos dela também trabalham para outra empresa, a Acto, que já teve contratos com o Sistema Fiems até 2023.
- Qual é o principal problema A falta de transparência. Apesar de os bens terem sido liberados, as perguntas sobre como o dinheiro do Sistema S é gasto e quem são os donos das empresas contratadas continuam sem resposta.
Bloqueio de R$ 400 milhões marcou a operação
Quando a Operação Fantoche começou, a Justiça mandou bloquear bens de 24 pessoas investigadas até o limite de R$ 400 milhões. Esse valor era o tamanho do prejuízo estimado por causa de contratos que seriam superfaturados, ou seja, com preços muito acima do normal.
A investigação apura crimes como fraude em licitações, associação criminosa, lavagem de dinheiro e outros delitos contra a administração pública.
Em Mato Grosso do Sul, a Polícia Federal focou em contratos que o Sesi fez entre 2010 e 2014. Auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU) mostraram que esses contratos tinham valores muito maiores do que os pagos por departamentos do Sesi em estados com indústrias muito maiores, como São Paulo.
Projetos como Sesi Bonecos do Mundo, Cine Sesi e Na Ponta da Língua viraram alvo de análise exatamente por essa diferença enorme entre o que foi pago e o que custaria em outros lugares.
Ausência de denúncia não encerra o debate sobre transparência
Mesmo que Longen não tenha sido denunciado criminalmente pelo Ministério Público Federal até agora, especialistas lembram que isso não é o mesmo que dizer que a investigação acabou. A falta de denúncia não resolve as discussões sobre como o dinheiro público ou parafiscal (que vem de contribuições obrigatórias) é administrado.
A liberação dos bens foi uma decisão sobre a necessidade de manter o bloqueio, e não uma decisão sobre se os fatos investigados são verdadeiros ou não.
Novos contratos reacendem questionamentos
Enquanto a Operação Fantoche continua sendo um dos maiores casos envolvendo dinheiro do Sistema S, novas informações colocam a Fiems novamente sob suspeita.
Uma reportagem mostrou indícios de que empresas contratadas pelo Sesi podem ter ligações com pessoas que fazem parte da atual diretoria da Federação.
Um dos casos é a contratação da empresa Blackbird, que foi criada há pouco tempo. Os donos dessa empresa também trabalham para a Acto Soluções em Tecnologia Ltda., que teve contratos com o Sistema Fiems até 2023.
O antigo dono da Acto, Luiz Gonzaga Crosara Júnior, depois virou vice-presidente da Fiems.
Documentos mostram que, mesmo dizendo que tinha saído da empresa, Crosara criou uma holding (uma empresa que controla outras) chamada Meridian Administração e Participações Ltda. Por meio dela, ele continua controlando a Acto.
Funcionários que acompanham os processos da Federação levantaram a suspeita de que a Blackbird foi usada para manter os contratos que antes eram da Acto, garantindo que a influência sobre os negócios continuasse.
Até agora, não há nenhuma decisão judicial que confirme essa suspeita.
Contradições aumentam as dúvidas
Quando questionado, Crosara disse que não tem nenhum vínculo com os donos da Blackbird.
Porém, na mesma conversa, ele reconheceu que os dois prestam serviços especializados para a Acto e confirmou que a Blackbird fornece serviços para a empresa.
Ele também negou ter influenciado a contratação da Blackbird pelo Sesi.
Essas declarações, no entanto, só reforçaram que existe uma conexão empresarial entre as companhias, mesmo que o empresário diga que não há nada de errado.
Fiems mantém silêncio
Outro ponto que chama a atenção é o silêncio da Federação.
Segundo a reportagem, pedidos de explicação foram enviados para a Fiems, o Sesi e o departamento jurídico da entidade, mas ninguém respondeu até a publicação da matéria.
Esse silêncio acontece em um momento em que vários contratos do Sistema S em Mato Grosso do Sul estão sendo investigados por reportagens que mostram ligações entre empresas contratadas e pessoas da própria administração da Federação.
Empresa nega irregularidades
O sócio da Blackbird, Ricardo Gouvea, disse que a empresa fez todos os serviços que foram contratados e contestou os valores de faturamento que foram divulgados.
Ele também disse que o mercado de tecnologia em Mato Grosso do Sul é pequeno e que a coincidência de profissionais não pode ser vista como prova de irregularidade.
Segundo ele, qualquer associação entre sua carreira e práticas ilegais seria injusta e poderia prejudicar sua reputação.
Transparência continua sendo o principal desafio
Mesmo com a liberação dos bens de Sérgio Longen, as várias reportagens sobre contratos milionários, empresas ligadas entre si e a falta de respostas oficiais mantêm viva a discussão sobre transparência, governança e controle do dinheiro administrado pelo Sistema Fiems.
Sem explicações públicas detalhadas sobre os critérios de contratação, a relação entre fornecedores e dirigentes e os mecanismos de controle, as perguntas vão continuar, especialmente por causa da importância do dinheiro que as entidades do Sistema S administram e do interesse público em saber como ele é usado.


Sérgio Longen, presidente da Fiems





